Facciosismo e coesão
Lavando roupa suja dentro de casa
O faccionismo intrapartidário é um fenômeno que surge de maneira quase inevitável em qualquer partido político, especialmente em contextos democráticos. Diferentes interesses, visões ideológicas e até disputas pessoais geram divisões dentro de um grupo político, levando ao surgimento de facções que, muito provavelmente, irão enfraquecer a coesão e a capacidade de ação do partido. Esse tipo de fragmentação pode ocorrer de várias formas: facções regionais, ideológicas ou até aquelas baseadas em ambições de poder pessoal.
Em seu Federalist Paper nº 10, James Madison descreve a natureza das facções como uma característica intrínseca das sociedades livres. Ele argumenta que, embora seja impossível eliminar completamente as facções, é fundamental encontrar maneiras de controlá-las para evitar que dominem o processo político. Madison sublinha que a diversidade de opiniões e interesses é inevitável, mas também essencial para o funcionamento da democracia. No entanto, quando essas facções se tornam muito poderosas ou descontroladas, elas podem ameaçar a unidade e a eficácia de qualquer grupo, incluindo um partido político.
“As facções são uma afeição que surgem na sociedade, e elas são tão inevitáveis quanto os próprios sentimentos humanos. A principal preocupação é com os efeitos de facções, e não com sua existência.”
No contexto partidário, o faccionismo é particularmente prejudicial. Quando os membros de um partido estão mais focados em suas próprias agendas do que no objetivo comum, a ação política torna-se fragmentada e ineficaz. A falta de unidade enfraquece a posição do partido perante os eleitores e dentro das esferas de poder. A capacidade de apresentar uma frente coesa se perde, tornando o partido vulnerável a divisões internas e a ataques externos. Fato plenamente observável no contexto brasileiro ao acompanhar as recentes disputas dentro do campo bolsonarista. As intrigas envolvendo o grupo de Nikolas Ferreira com o Centrão em contraposição ao grupo de lealistas à família Bolsonaro nos demonstra que tanto o facciosismo quanto a lavação de roupa suja em praça pública são prejudiciais para o pleno funcionamento de grupos políticos.
Aqui vale um parênteses pois, embora o grupo político bolsonarista seja, de fato, um grupo majoritário dentro da direita, ele nasce de uma série de arranjos oportunistas. O bolsonarismo trouxe para dentro de seu castelo diversos líderes com interesses pessoais, membros fisiologistas — que apoiarão quem lhes entregar mais benefícios — além dos lealistas de sua casa. Esse arranjo só foi possível por uma série de fatores que garantiam a vaga à presidência de Jair Bolsonaro. Com a prisão de Jair toda série de alianças se desfaz trazendo a ruína para o castelo com invasores de dentro dos muros. A queda de Ricardo II da Inglaterra demonstra essa situação de maneira exemplar. A queda de Ricardo II da Inglaterra é um exemplo clássico de traição dentro dos muros de um castelo político e ilustra de maneira exemplar os riscos das alianças oportunistas e da falta de lealdade interna. Ricardo II, que subiu ao trono com apenas 10 anos de idade, enfrentou durante seu reinado uma série de desafios relacionados ao controle de sua nobreza e à gestão de facções internas. Ele buscou consolidar seu poder por meio de alianças políticas com vários nobres, mas, ao longo de seu reinado, fez escolhas que criaram um ambiente de desconfiança e traição dentro de sua corte.
No início de seu reinado, Ricardo II se apoiou em alguns nobres poderosos, mas seu estilo de governo autoritário e a promoção de aliados pessoais em detrimento da velha aristocracia, como o caso de Michael de la Pole, Robert de Vere e outros, criou um clima de descontentamento. Ricardo favoreceu a alta burguesia e a nobreza leal em vez de manter a equilibrada lealdade aos barões tradicionais, o que enfraqueceu sua base de apoio.
A traição interna se deu de maneira decisiva quando Henrique Bolingbroke, filho de João de Gaunt e primo de Ricardo II, foi banido do reino por acusações de traição e por questões de disputa sobre a herança de seu pai. No entanto, com a morte de João de Gaunt, Henrique viu uma oportunidade de recuperar suas propriedades e o poder perdido. Com o apoio de mercenários e facções instáveis de nobres descontentes com Ricardo II, Henrique retornou à Inglaterra em 1399, proclamando sua intenção de buscar justiça por seu exílio e suas propriedades.
A grande traição ocorreu quando Henrique, apoiado por esses exércitos mercenários, reuniu forças suficientes para marchar até Londres e confrontar o rei. A falta de lealdade dos aliados de Ricardo, que estavam desiludidos com seu governo, permitiu que Henrique tomasse o trono sem grande resistência. Ricardo II foi capturado e forçado a abdicar em favor de Henrique, que se proclamou Henrique IV.
Esse episódio nos lembra da análise de Maquiavel, que em O Príncipe alerta para o perigo de depender de exércitos mercenários e alianças frágeis. Assim como um príncipe que se vê cercado por lealdades volúveis e interesses pessoais, um líder político ou um partido que depende de uma base de apoio construída em torno de interesses oportunistas e não de compromisso ideológico ou lealdade genuína está condenado ao colapso. Quando, como no caso de Bolsonaro, o castelo de alianças começa a ruir, os inimigos internos e externos se tornam mais fortes e a unidade do partido se desintegra.
“O príncipe que não tem forças próprias, mas se apoia em mercenários ou tropas auxiliares, jamais estará seguro; pois eles são desunidos, ambiciosos, indisciplinados e infiéis. Não têm temor de Deus nem fidelidade aos homens.”
Dado esse preâmbulo por demasiado longo, quero explorar com o leitor as maneiras de controlar o faccionismo intrapartidário, utilizando os escritos de Max Weber, Maquiavel e Hobbes, que discutem as dinâmicas de poder e como a centralização pode ser uma solução para a estabilidade interna de um partido. Além disso, vamos analisar como o modelo de resolução de conflitos presente em Mateus 18:15-17 oferece um caminho para tratar disputas dentro do partido sem comprometer sua integridade e coesão.
Ao compreender essas questões, podemos propor soluções que evitem que facções destrutivas se instalem no interior dos partidos, garantindo que as disputas internas sejam tratadas de maneira eficiente e sem prejudicar a unidade do grupo.
O faccionismo intrapartidário é um dos maiores desafios para a manutenção da coesão política dentro de qualquer partido. As facções surgem, muitas vezes, devido a divergências ideológicas, interesses regionais ou, até mesmo, pela disputa por projetos pessoais. Contudo, esse é um problema que pode, e muito provavelmente irá, desestabilizar o partido.
O primeiro grande problema associado ao faccionismo é a fragmentação da estratégia política. Quando diferentes facções dentro de um partido buscam caminhos alternativos, muitas vezes de forma contraditória, o resultado é a falta de uma agenda política comum, o que impede que o partido se apresente como uma força coesa. Fenômeno facilmente observável no fisiologismo de partidos do Centrão. O União Brasil, por exemplo, ao mesmo tempo que acumula parlamentares de oposição, como Mendonça Filho e Pauderney Avelino, mantém em seus quadros até mesmo ministros do Governo Lula, como Celso Sabino e Juscelino Filho. Em vez de se concentrar em uma única proposta ou objetivo, o partido se vê dividido em várias direções, enfraquecendo sua eficácia. Essa incapacidade de unificar a mensagem e a estratégia prejudica a própria gestão da marca partidária, deixando o objetivo maior longe de ser o principal.
Além disso, facções conflitantes frequentemente se envolvem em disputas de poder, o que enfraquece a liderança do partido. Quando membros influentes lutam por posições ou para promover suas agendas pessoais, a coesão do grupo é comprometida. A falta de estabilidade em suas lideranças acaba por resultar, também, em mudanças frequentes de posicionamento, dificultando o estabelecimento de uma direção clara para o partido. Em alguns casos, essas disputas internas se tornam públicas, prejudicando a imagem do partido e criando uma percepção de incapacidade para os eleitores. É justamente esse o maior erro dos bolsonaros, ao conduzir um combate fratricida dentro de suas fileiras eles conduzem a marca de seu movimento para o abismo, causando a sensação de amadorismo com seus eleitores.
Esse amadorismo também afetaria a legitimidade do partido. Quando um partido é visto como desorganizado, dividido e incapaz de controlar suas próprias facções, ele perde a confiança dos apoiadores. A visão de que o partido é governado por disputas internas e interesses pessoais em vez de um objetivo compartilhado maior do que interesses atomizados enfraquece sua imagem. A falta de coesão, quando não controlada, leva ao descrédito e à falta de autoridade política. Em momentos decisivos, como nas eleições ou em momentos de crise de imagem, como o envio de áudios comentando sobre a aparência de mulheres da europa oriental em um contexto de guerra, um partido fragilizado por facções será incapaz de agir com a força e a clareza necessárias para participar da guerra política.
Enfim, as facções são uma ameaça ao funcionamento básico de qualquer grupo político com suas consequências sendo amplamente observáveis em diversos contextos políticos.
Max Weber, um dos principais teóricos da política moderna, argumenta que a ausência de uma estrutura centralizada e clara de poder dentro de uma organização política cria uma instabilidade que facilita o surgimento de facções. Weber vê nas facções um reflexo da luta pelo poder e da busca por interesses materiais. Para ele, a centralização da autoridade é essencial para a estabilidade, pois permite que um líder ou grupo coeso defina a direção do partido, evitando que disputas internas o enfraqueçam.
“A dominação, em geral, e a dominação política, em particular, necessitam, para existir, de um aparato administrativo e de um mínimo de obediência voluntária. Quando essa obediência se dissolve em lealdades concorrentes, a autoridade deixa de existir como ordem e passa a ser apenas disputa.”
Hobbes, por sua vez, em Leviatã, aborda a ideia de que a ausência de uma autoridade central forte pode levar ao caos. Ele vê as facções como um reflexo da luta pelo poder, onde a falta de uma estrutura de controle resulta em uma disputa constante por poder entre grupos. No contexto de um partido, a falta de centralização permite que facções se multipliquem e se fortaleçam, comprometendo a estabilidade e a eficácia do partido. Segundo Hobbes, somente um governo forte e centralizado pode evitar que o faccionismo se transforme em um conflito interno que minará a coesão e a capacidade de ação do grupo.
“Quando homens particulares ou grupos começam a disputar a autoridade pública, o Estado se dissolve não pela força de inimigos externos, mas pela corrupção interna de suas partes.”
Essas teorias convergem para a ideia de que o faccionismo, embora inevitável, precisa ser controlado. Quando não há controle centralizado e liderança forte, o partido se fragmenta, as facções tomam o controle e, eventualmente, o partido perde sua capacidade de funcionar de forma eficaz. As divisões internas e a falta de lealdade comprometem tanto a autoridade quanto a legitimidade do partido, tornando-o vulnerável à desintegração.
Diante do faccionismo intrapartidário, a centralização do poder surge como um mecanismo de preservação da unidade política. Em organizações complexas, especialmente partidos, a dispersão excessiva de autoridade tende a transformar divergências naturais em conflitos. Quando múltiplos centros de decisão coexistem sem hierarquia clara, a política interna passa a operar numa lógica de competição permanente de seus quadros.
Max Weber oferece uma chave fundamental para compreender esse fenômeno ao tratar da dominação legítima. Para ele, toda organização política depende de uma cadeia de autoridade reconhecida, sustentada por regras previsíveis, funções definidas e um aparato administrativo capaz de impor decisões. A obediência, nesse modelo, se dirige à instituição e às funções que ela organiza. É isso que permite que existam conflitos sem colocar em risco a própria estrutura do grupo.
O problema surge quando essa cadeia se fragmenta. Weber descreve esse processo como a substituição da dominação racional-legal por formas concorrentes de lealdade. A obediência deixa de ser orientada pela instituição e passa a ser mediada por vínculos pessoais, afinidades ideológicas ou interesses regionais. O partido continua existindo formalmente, mas deixa de funcionar como corpo político. Ele se transforma em uma soma instável de grupos que reconhecem apenas a autoridade que lhes convém.
No contexto brasileiro esse fato é facilmente reconhecível. O MDB, por exemplo, mantém quadros que disputam um lado ideológico por puro oportunismo. Enquanto os setores mais ligados ao eixo Sul, Sudeste e Centro-Oeste preferem manter um apoio tímido ao movimento bolsonarista, o eixo Norte e Nordeste do partido se aproxima cada vez mais de Lula. Essas movimentações mostram que falta coesão intrapartidária.
Nesse ambiente, cada facção opera como se fosse soberana, testando constantemente os limites da autoridade central. A ausência de um centro capaz de arbitrar conflitos não produz pluralismo, mas competição interna permanente. A política interna se converte em um campo de batalha com infinitas trincheiras.
Hobbes leva essa lógica às últimas consequências ao tratar a fragmentação da autoridade como um problema existencial da ordem política. Em Leviatã, ele parte da premissa de que a convivência humana, quando não regulada por um poder comum capaz de impor decisões, tende ao conflito permanente. Não por perversidade excepcional, mas porque interesses concorrentes, medo, ambição e desconfiança criam um ambiente no qual cada grupo passa a agir preventivamente em defesa própria. A ausência de um comando reconhecido transforma divergências em disputas contínuas.
Quando Hobbes descreve a dissolução do Estado, ele não se refere apenas à guerra aberta, mas ao momento anterior, mais silencioso, em que a autoridade deixa de ser incontestável. As ordens dentro do partido passam a ser negligenciadas conforme a conveniência de quem as recebe. Para Hobbes, esse estágio já constitui uma forma de guerra, ainda que sem armas, pois a regra comum foi substituída por diplomacia pessoal.
Na lógica partidária esse raciocínio se torna direto. Quando diferentes grupos passam a disputar o comando, o conflito se torna parte da estrutura do partido. A liderança é permanentemente testada, tendo suas decisões contestadas de acordo com os interesses de cada facção. Nesse cenário, o partido deixa de operar como organização política e passa a funcionar como campo de batalha. Cada facção age como se fosse portadora de um direito próprio ao comando, justificando suas ações em nome de legitimidades alternativas.
Hobbes identifica nesse processo o mesmo mecanismo que conduz à guerra civil: a multiplicação de centros de autoridade. Quando mais de um poder reivindica o direito de mandar, nenhum manda de fato. O conflito se torna permanente porque não existe instância capaz de encerrá-lo. No interior de um partido, isso se manifesta na incapacidade de impor disciplina ao membros.
A centralização do poder, portanto, é condição sine qua non para que discordâncias internas não se convertam em facções. Ela estabelece um eixo de autoridade capaz de encerrar conflitos e definir os rumos do partido mesmo em contextos de desacordo profundo. Sem esse eixo, toda divergência tende a escalar, pois não existe instância final reconhecida por todos.
É somente a partir dessa autoridade central reconhecida que se torna possível pensar em mecanismos internos de correção e mediação de conflitos. Sem autoridade, qualquer tentativa de resolução interna se converte em mais uma disputa. Com autoridade, abre-se o caminho para freios e contrapesos intrapartidários capazes de preservar a unidade sem recorrer à exposição pública ou à fragmentação irreversível, tema da próxima parte do ensaio.
A centralização do poder, isoladamente, não resolve o problema do faccionismo intrapartidário. Sem mecanismos internos para correções, ela tende a gerar acúmulo de tensões, ressentimentos e disputas silenciosas que, em algum momento, emergem de forma desordenada. Por isso, a existência de freios e contrapesos dentro do partido é necessária para que a autoridade central se mantenha funcional ao longo do tempo. Aqui, o evangelho de Mateus 18:15-17 oferece um modelo particularmente adequado para pensar esse tipo de organização interna. Nas palavras de Jesus Cristo:
“15 Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. 16 Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. 17 Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano”.
O procedimento descrito nesse trecho parte do reconhecimento de que conflitos são inevitáveis em qualquer corpo coletivo, como a Igreja. A questão central não é sua existência, mas o modo como são conduzidos. O primeiro passo indicado é o tratamento direto entre as partes envolvidas. Trata-se de um mecanismo de contenção inicial, que impede que divergências circulem de forma difusa pela organização. Ao restringir o conflito ao espaço privado, preserva-se a coesão do grupo e evita-se que disputas pontuais sejam instrumentalizadas interna e externamente por agentes mal intencionados.
Quando essa etapa não produz resultado, o texto prevê a ampliação controlada do círculo, com a presença de testemunhas. Esse movimento introduz mediação de pares e lideranças. O conflito passa a ser observado e, no ambiente partidário, isso corresponde ao acionamento de estruturas internas capazes de intervir antes que a disputa se transforme em embate público ou em mobilização faccional.
Somente após o esgotamento dessas tentativas o conflito é levado ao corpo maior, no caso dos sistemas partidários, o conselho de ética e as convenções. A ordem desse processo estabelece que a publicidade do conflito deve ser exceção. Quando disputas internas são expostas prematuramente, o partido perde capacidade de gestão sobre seus próprios problemas tornando a divergência em instrumento político.
Aplicado à vida partidária, esse método cria condições para que divergências coexistam com disciplina, estabelecendo limites objetivos para a atuação de grupos internos, desestimulando a exposição pública de conflitos e preservando a unidade organizacional. Grupos políticos tendem a se enfraquecer quando perdem a capacidade de resolver seus próprios conflitos. A confiança interna, parte essencial do sentimento de corpo e da necessidade de entrega por objetivos além dos pessoais, se deteriora juntamente das lideranças. Nesse sentido, o Messias nos oferece uma arquitetura de resolução de conflitos compatível com quaisquer organizações complexas.
Por fim, uma crítica comum a esse modelo é se assemelhar demais com um modelo administrativo soviético, cheio de burocracias e com instâncias específicas para tratar os assuntos. Veja, trata-se de um partido político. Uma organização que tem objetivos ideológicos finalíssimos — ou, ao menos, deveria ter. Isso significa abandonar a individualidade pelo projeto completo. Não estamos revisitando o entendimento sobre governos e Estados, mas sim entendendo a melhor forma de administrar uma parte desse modelo, os partidos.
